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LER/DORT atinge 3,5 milhões de trabalhadores

Foto divulgação/Arte:Evilyn Cristhina Silva

28 de Fevereiro é o Dia Mundial de Combate às Lesões por Esforços Repetitivos (LER) ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT)

Por ACS/ Débora Maria Santos em 25/02/2016

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE, mostrou que em 2013, 3.568.095 trabalhadores disseram ter tido diagnóstico de LER/DORT. Há décadas, dentre as doenças ocupacionais, são as mais frequentes nas estatísticas da Previdência Social.

Para a médica e pesquisadora Maria Maeno, da Fundacentro de São Paulo, o número apontado pela PNS parece chegar mais próximo à realidade do que se conhece por estudos sobre diferentes categorias profissionais, pela experiência dos sindicatos e pela demanda atendida em serviços de saúde.

Desde 2000, o dia 28 de fevereiro é considerado o Dia Internacional de Combate às Lesões por Esforços Repetitivos ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados do Trabalho (DORT). Pesquisadores da Fundacentro comentam sobre a doença que é vista como uma das doenças ocupacionais que ainda geram incapacidade prolongada.

De acordo com o protocolo do Ministério da Saúde, as LER/DORT “são, por definição, um fenômeno relacionado ao trabalho. São danos decorrentes da utilização excessiva, imposta ao sistema musculoesquelético, e da falta de tempo para recuperação. Caracterizam-se pela ocorrência de vários sintomas, concomitantes ou não, de aparecimento insidioso, geralmente nos membros superiores, tais como dor, parestesia, sensação de peso e fadiga. Abrangem quadros clínicos do sistema musculoesquelético adquiridos pelo trabalhador submetido a determinadas condições de trabalho.”

No boletim estatístico produzido pela Fundacentro, a PNS mostrou que com relação às limitações das atividades diárias causadas pela DORT, como dificuldades em trabalhar, ir ao trabalho, realizar afazeres domésticos e de autocuidado, como vestir-se e tomar banho, quase 16% dos entrevistados referiram que elas eram intensas ou muito intensas.

Segundo o boletim, “a PNS também investigou sobre processos terapêuticos e de reabilitação, observou que 906.363, o que equivale a 25,40% dos entrevistados realizam ou realizaram algum tipo de exercício e/ou fisioterapia para minimizar os efeitos da LER/DORT, e quase 35% (1.247.300) deles usaram ou fazem uso de tratamento com injeções ou medicamentos pelos mesmos problemas.”

Dor e a incapacidade para o trabalho

A cronicidade da dor e da incapacidade para o trabalho são características de muitos casos de LER/DORT, o que leva à estigmatização e discriminação dos trabalhadores adoecidos. “O tempo de trabalho em uma empresa, que no passado era um aspecto positivo nos processos de seleção, atualmente significa o tempo de desgaste físico e psíquico para o trabalhador que trabalha em atividades nas quais a incidência de LER/DORT é alta,” salienta Maeno.

A médica também relata que muitos trabalhadores adoecidos, ao não conseguirem se reinserir no mercado de trabalho e ao manterem a dor e incapacidade, entram com processo na justiça do trabalho, buscando a reintegração ou indenização. Maeno desenvolve,atualmente, um estudo que analisa os laudos periciais de processos trabalhistas quanto aos aspectos conceituais de adoecimento, de incapacidade e de nexo causal do quadro clínico com o trabalho.

O tecnologista da Fundacentro de Santa Catarina, Léo Vinicius Maia Liberato, comenta que está desenvolvendo um projeto sobre bancários e que tem observado que cada vez mais as pesquisas com esses trabalhadores têm sido relacionadas os fatores de organização do trabalho e o aparecimento da LER/DORT.

“Uma organização do trabalho que através do controle do tempo, da pressão por metas, de uma determinada divisão do trabalho ou mesmo de protocolos rígidos, não deixa margem de regulação de forma coletiva e individual, da carga de trabalho aos trabalhadores. Isso por sua vez, é propício ao aparecimento de agravos à saúde dos trabalhadores, incluindo às LER/DORT. No caso dos bancários é bastante claro que a gestão por metas instituída nos bancos e a pressão decorrente são centrais no sofrimento e adoecimento desses trabalhadores. A questão, portanto, que é também uma questão política, é como construir essa autonomia, esse poder de agir dos bancários na sua atividade, diante das atuais formas de organização do trabalho e de gestão”, salienta Liberato.

Projeto

Outros aspectos psicossociais do trabalho também contribuem para o surgimento e agravamento das LER/DORT, como a falta de suporte social no trabalho, gestão baseada no assédio moral e pressão psicológica constante. As pesquisadoras da Fundacentro, Daniela Sanches Tavares, de São Paulo e Juliana Andrade Oliveira, de Santos, estão inseridas no projeto “Relatos e Atualizações sobre Atenção Integral aos Trabalhadores com LER/DORT e AMERT nos Cerest´s”. A médica Maria Maeno orienta e participou da concepção do trabalho.

Daniela Sanches comenta que o projeto é oriundo de uma demanda do Cerest Guarulhos de apoio técnico científico. No final de 2013, Elaine de Paula, ex-aluna da pós-graduação da Fundacentro, e Rosa Maria do Amaral, ambas do CEREST Regional Guarulhos, à época coordenada por Walquíria Kasaz, procuraram ajuda da Fundacentro para fazer um relato da prática desenvolvida por elas há vários anos, de intervenção transdisciplinar com trabalhadores acometidos por LER/DORT e outras afecções musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho.

“Ao longo do trabalho, e em contato com outros CERESTs, percebemos a conveniência e oportunidade de promover um espaço de reflexão e troca de experiências entre os profissionais de outros CERESTs do Estado de São Paulo. Assim, no ano de 2015, foi realizada uma oficina voltada a debater a expectativa dos técnicos que conduzem estas intervenções quanto aos resultados deste trabalho e ainda outras questões que surgissem no debate. A iniciativa foi muito bem recebida e aproveitada pelos CERESTs participantes que trouxeram, dentre outras questões, a importância de se integrar as ações de assistência com a vigilância. Também foram tema de debate, a necessidade imperativa de se mudar as condições de trabalho para que seja possível a reabilitação profissional dos adoecidos, de forma a garantir a integralidade das ações do Sistema Único de Saúde (SUS) nesta área e, possibilitar a intervenção de forma mais precoce nos adoecimentos do trabalho e ainda a primordialidade de humanizar a formação dos profissionais de saúde”, aponta Daniela.

Já Juliana Andrade discorre que é frequente que os trabalhadores adoecidos por LER caiam em adoecimento emocional. Exalta que os sintomas da LER, DORT e AMERT são invisíveis, mas incapacitantes até mesmo nas atividades domésticas cotidianas. “Devido a essa fragilização, que vai além da atividade de trabalho a qual desempenhavam, é comum que os profissionais dos Cerests se deparem com pacientes com sintomas de depressão, angústia e medo de voltar ao trabalho. Frequentemente esses trabalhadores necessitam de tratamento psicológico, pois apesar de incapacitante, a LER é invisível, o que faz com que esses trabalhadores se vejam solitários, sem a compreensão das pessoas que convivem com ele”, destaca Oliveira.

Para ela, diante deste quadro, alguns Centros de Referência em Saúde do Trabalhador se lançaram ao desafio de acompanhar seus pacientes com abordagens que atacassem ao mesmo tempo as limitações físicas e o sofrimento emocional. “Na prática, os pacientes de LER/DORT demonstram a necessidade de um trabalho terapêutico e educativo que considere a totalidade biopsicossocial do sujeito”, finaliza Juliana.

Para este ano, Daniela diz que a “ideia é produzir um documento em conjunto com todos os participantes desta oficina e divulgá-lo, uma vez que pode ser de grande utilidade para novos profissionais e para a disseminação de conhecimentos sobre atenção integral a trabalhadores acometidos por LER/DORT”, salienta. Este projeto é objeto de um Acordo de Cooperação Técnica firmado entre Fundacentro e Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos e contou com o apoio e orientação de Leny Sato e Fábio de Oliveira, ambos do IP-USP. A organização da Oficina contou também com a colaboração de Maria Teresa Bruni Daldon, do Cerest da Freguesia do Ó e de Carolina Grando, aluna da pós-graduação da Fundacentro.

A pesquisadora da Fundacentro do Rio Grande do Sul, Maria Muccillo, explana que o trabalho em frigoríficos é um mundo à parte quando se observa sob a óptica da Segurança e Saúde do Trabalho. “A Norma Regulamentadora nº 36, em seu texto, particulariza o cenário produtivo e decodifica os fatores que se constituem em agressões diretas e/ou possibilidades indiretas. Desde os aspectos de infraestrutura predial, maquinário, organização, modo de produção, estratégias administrativas, ao priorizar a produção sobre a qualidade de vida dos trabalhadores. Destacam-se as LER/DORT pela gravidade, grau de incidência e por ter seu espaço conquistado à duras penas para ser conhecido e reconhecido. Porém, os fatores que geram esse tipo de adoecimento, geram também outros, ainda pouco discutidos e relacionados entre si, refiro-me aos cardiovasculares, respiratórios e relacionados à saúde mental”, aponta Muccillo.

Para Maria, se a base científica que está por detrás dos dispositivos da NR-36 for compreendida pelos empresários e trabalhadores -, muitos avanços poderão ocorrer e, com isto, o setor poderá mudar o seu perfil de "atividade que adoece" para "atividade que busca incessantemente harmonizar a produção, os negócios e a verdadeira SST". “A cada visita técnica realizada em diferentes empresas e corporações no ramo, encontramos um descompasso entre esses com indicadores, gerando ou incubando situações que levaram e levarão a grandes perdas - tanto para a empresa como para seus trabalhadores, se persistir como está no momento de fatos”, frisa a pesquisadora.

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